quarta-feira, 30 de maio de 2012

De Espião Nazista ao Cargo Publico no Estado do Ceara



 De Espião Nazista ao Cargo Publico no Estado do Ceara



Gerardo Melo Mourão, o espião que mandou aos submarinos nazistas as informações que possibilitaram o afundamento de 5 navios nossos, com a perda de 650 vidas brasileiras, foi condenado à morte no Rio de Janeiro, teve a pena comutada, cumpriu alguns anos de prisão e agora recebeu a gratidão da Pátria: nomeado para o posto de presidente da COAP, em For­taleza — Enquanto isto, os pracinhas rondam os institutos e as viúvas dos mortos nos afundamentos são forçadas a apelar para a caridade pública.
Por   DAVID   NASSER
Foi um encontro ocasional.   Jornalistas e escritores conversavam com políticos e funcionários públicos ao redor de uma mesa. Numa roda, onde estavam Frederico Chateaubriand, Antônio Castro Pinto, Breno Acioli e este vosso amigo, alguém entrou.   Era um tipo melífluo, escorregadio, de óculos pesados, expressão indefinida.   Estendeu a mão a Fred e a Breno Acioli também. Timidamente, le­vou-a ao terceiro — o repórter destas notas. Disse-lhe então, que podia recolhê-la. Que haveria naquela mão que impedia de ser apertada? Que teria feito aquele homem para que lhe fosse negado um simples cumprimento? Por que não apertei aquela mão?
As mãos de Gerardo Melo Mourão estão manchadas de sangue — e assim ficarão até o dia em que a terra lhe seja leve — responsável pela morte de cen­tenas de brasileiros nos afundamentos de nossos navios por submarinos alemães.
Enquanto as noivas, as mães, as filhas brasileiras rezavam, em seus lares, pela feliz viagem de seus entes queridos, as mãos tenebrosas de Gerardo Melo Mourão transmitiam para as bases de espionagem nazistas os dados certos sobre a partida dos barcos, a provável rota e outras indicações que possibilitaram a caçada mortífera em águas nacionais.   Os navios eram postos a pique, facilmente, tão perfeito se mostrar Melo Mourão na sua tarefa. Rapaz inteligente pertencera às hostes integralistas, formando na cúpula e trabalhando como secre­tário particular do chefe nacional. Cada vez que um barco mercante do Brasil -j Ia para o fundo — Melo Mourão recebia o pagamento da traição.   Não se pode precisar a quantia certa, mas variava, ao que parece, pela tonelagem posta a pique.
Nos dias angustiantes de Al Alamein, quando Montgomery pedia e esperava reforços decisivos para a batalha final, passou pelo Rio o Queen Mary. Melo Mourão e seus homens estiveram atentos para o aviso fatal que liquidaria o maior navio-transporte dos aliados, o mesmo que conduzia para os campos de batalha da África meia divisão completa. Realmente, o aviso foi dado, mas o Inteligence Service o interceptou e fez o navio regressar naquele mesmo dia à Guanabara, enquanto os aviões militares brasileiros afundavam um submarino alemão a poucas milhas do Pão-de-Açúcar. Documentos encontrados, posteriormente na Alemanha e depoimentos de agentes nazistas graduados, entre os quais, Nils Christiensen, re­velaram que Melo e seus parceiros haviam de fato, comunicado aos submarinos nazistas a partida do Queen Mary sem esperar que o transporte voltasse à base. Se afundado, talvez mudasse o curso da guerra.
Os nazistas, do outro lado do Atlântico, pediam vidas brasileiras, mais vidas brasileiras para castiga­rem o atrevimento do país sul-americano, da terra que eles imaginavam de macacos e de mulatos traido­res como Melo Mourão e outros. Os Embaixadores da Alemanha e da Itália naquela época haviam encon­trado um brasileiro completamente destituído de amor à sua terra e à sua gente, um sacripanta que, sem re­morso, auxiliara o inimigo nessa tarefa assassina, en­viando pelo Morse a marcha dos navios nacionais, na rotina de suas viagens pela costa do Atlântico — e indo levar à Argentina, para os agentes nazistas que esta­vam no Rio Prata — os pianos de fortificações e de ar­mamentos da costa brasileira para um possível desem­barque de tropas nazistas vindas de Dakar.
Gerardo Melo Mourão, esse homem cuja mão ne­nhum brasileiro de bem poderá apertar, é o responsável direto pelo afundamento de cinco navios, pelo menos.   Os alemães lhe creditaram o sacrifício de 650 vidas brasileiras.
Até um nazista devia sentir nojo por um cabra assim. Pago feliz com o dinheiro no bolso, Melo Mou­rão fazia planos para novas empresas assassinas, quando foi descoberto, graças a um cerco perfeito. O traidor foi processado e tais eram as provas, tão contundente era o libelo e tão positiva foi a sua con­fissão, que o tribunal brasileiro, naquele período de guerra, não pode deixar de ser implacável, pronun­ciando a sentença máxima:
Por sua traição ao Brasil, por sua respon­sabilidade no afundamento de navios nossos e conse­quente perda de centenas de vidas brasileiras.

GERARDO MELO  MOURÃO  É CONDENADO À   PENA  DE   MORTE   POR  FUZILAMENTO
Depois, falou o coração mole dos brasileiros e a pena máxima foi transformada em 30 anos de prisão e no Governo sem ódio do General Dutra, o calabar foi posto em liberdade. Mal saiu da Penitenciária, Melo Mourão conseguiu um lugar nos arquivos secretos do Ministério das Relações Exteriores. Talvez lhe tenham pedido para estudar um novo sistema de códigos para o Itamarati — o que facilitaria muitíssimo a sua futura atividade de espião em qualquer conflito em que se envolva o Brasil. Melo Mourão, evidentemente, não agiu por amizade à Alemanha ou à Itália, mas por di­nheiro. Pagaram-lhe bem. Se a Rússia amanhã fizer o mesmo, ele trabalhará para ela. É o tipo exato do espião profissional, espécie rara no Brasil.
Deixou o Itamarati, conseguiu insinuar-se na imprensa, credenciando-se como jornalista na Câmara dos Deputados. Ali fez amizade com o Deputado Raul Bar­bosa, hoje Governador do Ceará.
Se o Governador sabia ou não da vida pregressa do espião — desconhecemos. A nomeação de Melo Mourão. Entretanto conseguida por ele, deixa mal, horrivel­mente mal, o Governador Raul Barbosa. A lama que enegrece a vida, o passado e o presente de Melo Mourão — é lama que jogada num ventilador atinge a todos que estão em volta.
Para todos os cearenses de pudor — o Ceará está vestido de crepe com a presença, na direção de um dos órgãos mais importantes do Estado, de um traidor condenado à morte por ajudar o inimigo a destruir vidas brasileiras.

Gerardo Melo Mourão foi nomeado Presidente da COAP no Ceará. É o traidor o encarregado de estabelecer preços, de formular aumentos, de dirigir a economia doméstica de milhares de família cearenses.
O General Caiado de Castro, aqui no Catete, tudo fez para impedir a su­prema infâmia prendendo durante 40 dias a nomeação do “monstro do Atlântico” (tal o apelido que recebeu na Penitenciária) para o alto posto administrativo. O Governador, entretanto, empenhou-se demais, transformando a questão de ro­tina numa exigência — e o crime foi perpetrado Melo Mourão desembarcou um dia em Fortaleza e a terra de Iracema corou de vergonha. As viúvas e os órfãos dos mortos nos afundamentos desses mesmos navios brasileiros que Melo Mourão torpedearam no Atlântico ainda não receberam, totalmente, as indenizações que por direito lhes cabem.
As  viúvas dos pracinhas mortos na  Itália lutam com dificuldades, porque as suas pensões  são baixa e insuficientes.
Os inválidos da guerra, aqueles que os parceiros de Melo Mourão atingiram em cheio, rondam as ruas da cidade, batendo de porta em porta, e em alguns casos, recorrendo à caridade pública, por falta de leis especiais e de uma organização modelar de amparo, Nair Café, uma brasileira que viajava num dos navios que as informações de Melo Mourão puseram ao fundo, perdeu uma das pernas e ela, que era ar­tista —. Vive sabe Deus como.
Exemplos assim podem ser apontados às centenas — homens e mulheres que se sacrificaram por um ideal, quando sua pátria estava em perigo.
Agora, que o mundo está no limiar de novo conflito, agora que a ameaça parda de Hitler, destruída apesar dos Melo Mourão que tínhamos aqui dentro, transformou-se na ameaça viva e rubra de Malenkov (e ternos milhares, centenas de milhares de Melo Mou­rão, fanáticos, em todos os postos-chave) o estímulo que se dá ao patriotismo, ao espírito cívico dos bra­sileiros é este: conferir aos ex-sentenciados à morte por espionagem contra o Brasil, lugares rendosos e altíssimos da administração federal.
Fonte: O Cruzeiro / Edição de 1953

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